Pinta Art Fair - New York -NY



Rastros do tempo - O embaraço das linhas da memória

Como quem desenha uma linha. Reta, outra não tão reta. Sinuosa. Como quem olha e encontra o embaraço dos fios. Como quem procura a si, tentando encontrar no anti-horário dos relógios a sua história. O tempo que volta para trás: -”Mas agora já são tantos os fios!”. E assim, como quem conta uma história. Como quem procura o fio da meada, acha na memória o novelo.

A contemporaneidade nos ensinou que o homem é sujeito constituído de pedaços e,  que fragmentado, caminha procurando incessantemente sua unidade. Nos ensina que, no máximo, ele consegue promover clarões, vislumbrar em poucos segundos a sua própria  existência.  Instante onde seus fragmentos  encontram uma ordem temporária, capaz de organizar o passado, dar um sentido pro presente e predizer o futuro...

O artista contemporâneo, em muitos dos seus movimentos, faz isso. Coleta rastros, guarda nas gavetas pedaços de papel, linhas, folhas, roupas velhas. Nos cantos de suas casas residem sem aluguel, pedaços de madeira, latas de tintas sem tinta, o resto da utilidade. Perenes,  todos esses sinais aguardam o movimento da memória que nem sempre se reveste de história a ser contada. A ação é do tempo. É ele quem  ensina o  gesto a ser aplicado, que guarda as descobertas e que cultiva a cultura. Ele quem diz: -“ Arte!”. A memória é uma habilidade do Tempo e,  às vezes, ela  é ancestral, memória que permanece do mundo. Tipos, arquetipos, deuses. E, se ainda não o são, podem vir a ser.

O artista Raimundo Rodriguez é um coletor,  trabalha com matéria de memória, transforma  as suas, as do universo, as de outrem em objetos estéticos. Seus sinais são mutantes, uma coisa se transforma em outra. Seu trabalho é rastro do mundo. Diz sem contar sobre o tempo. E, se o tempo é qualidade, suas obras cativam porque coincidem sincronicamente com outras temporalidades.

Sabrina Travençolo
Cientista Social, artista plástica e integrante do Grupo Garrucha

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